Entrevista

Rafaela Silva sobre trajetória: 'Não tive nada com facilidade e isso me ajudou'

Publicada em 04 de Março de 2017 ás 15:02:07
Roberto Teixeira/EGO


 Rafaela Silva tem 24 anos e é a primeira judoca brasileira a se consagrar campeã olímpica e mundial de Judô. Começou no judô com 5 anos, em uma associação de moradores na Cidade de Deus, comunidade carioca onde nasceu e foi criada. Aos 8 conheceu o Instituto Reação, do ex-judoca Flávio Canto, onde está até hoje. Lá, ela aprendeu, entre golpes e muito suor, a enxergar a vida de uma maneira diferente. Viajou de avião pela primeira vez ainda criança, conheceu outros continentes, ganhou, perdeu e cresceu com as dificuldades e oportunidades que surgiram em sua frente.
 
A mãe, caixa de supermercado, e o pai, entregador de restaurante, abdicaram de muita coisa para que a filha pudesse voar, o que ela lembra com orgulho e lágrimas nos olhos. “Meus pais faziam o máximo para dar o melhor, mesmo não sendo sempre o que a gente queria. A gente queria um biscoito recheado e não podia, tinha que comprar um mais barato. Não tive nada com facilidade, sempre tive que batalhar para conseguir as coisas e isso me ajudou a crescer não só na vida, mas também no esporte”, disse a campeã olímpica ao EGO
 
Nesta entrevista, Rafael Silva fala sobre carreira, família, homossexualidade, preconceito, vaidade e muito mais. Leia abaixo:
 
Você é cercada de estereótipos. Mulher, negra, pobre, homossexual. Já sofreu por isso?
A gente não escolhe a cor que quer nascer, se quer nascer em berço de ouro ou de madeira. Me vejo como qualquer outra pessoa, a única diferença é a vontade e o sonho que temos dentro da gente. Claro que já ouvi que não seria melhor que ninguém por ser negra, que lugar de macaco é na jaula e não numa olimpíada. Xingam se posto foto com a minha namorada. Fora as coisas que a gente passa no dia a dia, passar perto de um carro de luxo e a pessoa levantar o vidro... A gente não é obrigado a andar bem vestido o tempo inteiro. Só porque a gente é negro e está de chinelo é bandido?
 
 
 

 

 

 

 

Você chegou no 'Reação' com 8 anos e de lá saiu campeã. Qual a importância do Instituto na sua vida?
Acredito que 99% da minha medalha é do Reação. Eu morava dentro de uma comunidade, ganhava as viagens, mas minha família não tinha dinheiro para me ajudar. O meu professor passava a minha passagem no cartão de crédito dele, me dava o dinheiro pra fazer minha alimentação. Se não fosse ele acreditando numa criança de 8 anos que não era nada hoje eu não seria campeã mundial e olímpica.
 
 
 

 

 

 

 

Então as coisas na sua casa não eram muito fáceis, financeiramente falando...
Nunca tive nada fácil, meu pai deixava de comprar uma roupa dele para comprar uma para mim, fazer minhas vontades e hoje virou o contrário. Fui conquistando alguns patrocínios através do judô, reformei a casa dos meus pais. Hoje ele faz frete com o caminhão que a gente ganhou e minha mãe tem a loja dela. Estou sempre dando suporte e retribuindo tudo o que eles fizeram por mim. Faço judô pela minha família.
 
Apesar disso, a sua realidade foi diferente de muitas das crianças que crescem na Cidade de Deus. Você via muita coisa errada?
Comecei a disputar com 8 anos. Lá na Cidade de Deus os pais diziam que estavam me acompanhando e as crianças queriam saber como era conhecer outra cidade. A gente só convivia ali, qualquer outra coisa já era diferente. Sempre gostei de brincar na rua. Claro que via muitas coisas erradas, mas, se visse saia de perto. Nunca gostei nem do cheiro de cigarro. Sempre brinquei, mas sempre me distanciei dessas coisas, porque meu pai sempre falou que era errado, ele sempre tentou corrigir a gente desde pequeno.

Depois da Olimpíada não só a sua vida profissional chamou a atenção, como a sua vida pessoal. Falaram muito do seu namoro, te incomodou?
Isso nunca foi problema pra mim. Minha família e amigos sempre souberam da minha vida, Nunca escondi para ninguém. Só abriu pra todo mundo, mas pra mim e para minha namorada não fez diferença. Às vezes posto foto com ela e sempre aparece alguém pra dizer que é ridículo. Eu finjo que não vejo, mas tem horas que o dedo coça para não responder.
 
 
 

 

 

 

 

Você parece ser uma pessoa brava. O judô te acalmou?
Sou tímida, mas as pessoas dizem que tenho uma personalidade muito forte. É... sou brava, sim. Sempre fui briguenta, eu brigava todos os dias, desde pequena, só fui parar com 16 anos. Eu brigava com todo mundo, se mexia com as minhas coisas, eu ia para cima.
 
 
 

 

 

 

 

Você é vaidosa?
Zero. Minha irmã e minha mãe me obrigam a cuidar do cabelo. Não pinto, não faço nada demais. Não uso maquiagem de jeito nenhum, Deus me livre, só sou maquiada se tenho que ir a um evento, mas fico piscando toda hora. Também não faço dieta. Minha alimentação só é certinha quando vou lutar e tenho que bater peso.  Aí fico de mau humor. Não gosto de comida, só gosto de comer besteira.
 
Mudou muita coisa depois da Olimpíada? Tem medo de cair no esquecimento?
Agora se eu tiver que resolver coisas às pressas não dá. As pessoas me param, reconhecem e é chato passar direto, essas pessoas me apoiaram quando eu estava lutando. Estou tendo uma vivencia parecida com a da Sara (Menezes). Ela venceu na Olimpíada de Londres. Agora que ganhei as pessoas perguntam se eu sou a única campeã, não lembram dela. A gente dá a vida por isso, sabe? Em uma Olimpíada ela era sensação e agora ninguém lembra. Pra gente ela tem muita importância. Mas eu não ligo para o que as pessoas falam.
 
 
Do EGO

 

Fonte/Autor: Diario News Bahia

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